José Gonçalves, diretor geral da SafeBrok Portugal, defende que as famílias portuguesas estão mais atentas ao orçamento, ao crédito habitação e aos seguros, mas continuam a tomar muitas decisões financeiras apenas quando a pressão já se faz sentir.
A pressão sobre o rendimento das famílias, a inflação e a subida das taxas de juro alteraram a forma como muitos portugueses olham para o dinheiro. Segundo José Gonçalves, diretor geral da SafeBrok Portugal, há hoje maior atenção ao orçamento, aos créditos, aos seguros e à poupança. No entanto, essa mudança ainda não significa, necessariamente, uma gestão financeira mais planeada.
Em declarações ao Empreendedor, José Gonçalves sublinha que o ponto de partida deve ser sempre o diagnóstico da situação financeira de cada cliente, antes da escolha de qualquer solução.
“Antes de falar de soluções, procuramos compreender o seu ponto de partida, os objetivos, os riscos, os compromissos financeiros e o horizonte temporal”, explica o diretor geral da SafeBrok Portugal.
Do piloto automático ao planeamento
José Gonçalves identifica uma mudança clara no comportamento financeiro dos portugueses. As famílias estão mais atentas à forma como gerem o dinheiro, mas continuam, em muitos casos, a agir apenas quando sentem uma pressão imediata sobre o orçamento.
Durante vários anos, muitas decisões financeiras eram mantidas em piloto automático. O crédito habitação era contratado e raramente revisto. Os seguros eram pagos ano após ano sem uma análise detalhada. A poupança ficava parada, muitas vezes sem um objetivo definido. Já o investimento era visto como uma realidade distante, associada a patrimónios elevados.
Esse comportamento, segundo José Gonçalves, está a mudar. “Hoje há maior consciência de que pequenas decisões podem ter impacto relevante ao longo do tempo”, afirma. Rever uma prestação, ajustar uma apólice, reorganizar a poupança ou começar a planear a reforma mais cedo pode fazer diferença no equilíbrio financeiro de uma família.
Ainda assim, o responsável considera que o país tem um caminho a percorrer. A principal mudança, defende, passa por deixar uma lógica reativa e avançar para uma gestão financeira mais estruturada. “Há um caminho a fazer: passar de uma gestão reativa para uma gestão planeada”, sublinha.
Crédito e seguros ganham peso no orçamento
A renegociação do crédito habitação tornou-se uma preocupação mais presente para muitas famílias. A subida das taxas de juro expôs o peso da prestação mensal e levou muitos agregados a questionar se as condições contratadas continuam ajustadas à sua realidade financeira.
No crédito habitação, pequenas diferenças no spread, no tipo de taxa, nos seguros associados ou nas comissões podem representar poupanças relevantes. No entanto, José Gonçalves alerta que a decisão nem sempre é simples. Muitas famílias não sabem exatamente que elementos devem comparar, que custos devem considerar ou qual pode ser o impacto de transferir o crédito para outra instituição.
A mesma dificuldade surge nos seguros. De acordo com o diretor geral da SafeBrok Portugal, muitas pessoas sabem que têm seguros, mas desconhecem as coberturas, exclusões, capitais contratados ou duplicações existentes. O resultado pode ser duplo: famílias subprotegidas, que acreditam estar cobertas e não estão, e famílias que continuam a pagar por coberturas que já não fazem sentido.
“O nosso papel é ajudar a organizar essa análise. Não se trata apenas de procurar uma prestação mais baixa ou um prémio mais barato”, refere José Gonçalves. Para o responsável, a questão central é perceber se o crédito, os seguros e a proteção financeira estão alinhados com os objetivos, responsabilidades e capacidade financeira de cada família.
Poupar não é o mesmo que planear
O aumento do debate público sobre poupança, PPR, investimento e reforma é visto por José Gonçalves como um sinal positivo. Na sua perspetiva, os portugueses estão hoje mais conscientes de que depender apenas do rendimento mensal pode não ser suficiente para garantir segurança financeira no futuro.
Também há maior abertura para discutir temas que antes pareciam distantes, como diversificação, objetivos de longo prazo, proteção familiar ou preparação da reforma. Esta evolução revela, segundo o diretor geral da SafeBrok Portugal, maior maturidade na forma como muitos portugueses encaram as suas decisões financeiras.
Contudo, persistem lacunas relevantes ao nível da literacia financeira. A primeira é a tendência para confundir poupança com planeamento. Poupar é essencial, mas não basta. É necessário saber para que se poupa, durante quanto tempo, com que nível de risco, com que necessidade de liquidez e com que objetivo.
A segunda lacuna está na forma como muitos portugueses olham para produtos como PPR ou investimentos. José Gonçalves defende que estas soluções não devem ser analisadas isoladamente, mas integradas numa estratégia mais ampla.
“Liberdade financeira não significa necessariamente deixar de trabalhar cedo ou atingir um determinado valor patrimonial. Significa ter mais margem de escolha, mais segurança perante imprevistos e maior controlo sobre o futuro”, afirma.
Para o diretor geral da SafeBrok Portugal, esta evolução exige literacia, disciplina e acompanhamento ao longo do tempo. Num contexto em que o rendimento das famílias continua pressionado, o desafio passa por transformar a atenção crescente às finanças pessoais em decisões mais informadas, consistentes e ajustadas ao futuro.